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Entendendo as cardiopatias congênitas | Parte 3 – Hipofluxo Pulmonar

Cardiopatias de hipofluxo pulmonar

As cardiopatias de hipofluxo pulmonar são aquelas onde há uma diminuição do fluxo sanguíneo pulmonar. Trata-se de uma grande variedade de cardiopatias, onde alterações na anatomia do coração fazem com que o sangue se desvie do lado direito (relacionado aos pulmões) ao lado esquerdo (relacionado ao restante do organismo) do coração. São cardiopatias complexas onde a principal complicação é a diminuição do oxigênio circulante, a chamada hipoxemia, que leva ao sinal característico dessas doenças que é a cianose – coloração arroxeada da pele decorrente da baixa saturação de oxigênio no sangue.

Para entendermos as cardiopatias de hipofluxo pulmonar vamos relembrar o funcionamento do coração normal. O coração é formado por quatro câmaras (2 átrios e 2 ventrículos) que funcionam como se fossem dois corações independentes, sendo um (do lado direito) responsável por receber sangue venoso (rico em gás carbônico) do corpo e enviá-lo aos pulmões, e outro (do lado esquerdo), recebe o sangue oxigenado (arterial) dos pulmões e o distribui para todo organismo. Esses dois corações são separados por uma parede íntegra, o septo cardíaco, que se chama septo interatrial ao nível dos átrios e septo interventricular ao nível dos ventrículos.

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Para a existência do hipofluxo pulmonar devemos ter condições que dificultem o sangue de se dirigir aos pulmões e, ao mesmo tempo, permitam que ele se desvie do lado direito ao lado esquerdo do coração. Notem que para a existência do hipofluxo não basta somente existir a dificuldade de o sangue chegar aos pulmões, é preciso também que esse sangue seja direcionado ao lado esquerdo, fazendo com que o sangue bombeado ao organismo seja uma mistura entre o sangue arterial e o sangue venoso desviado. Para isso deve haver uma ligação entre o lado direito e o lado esquerdo do coração, que pode ser a nível atrial (comunicação interatrial – CIA); ventricular (comunicação interventricular – CIV) ou arterial (persistência do canal arterial – PCA).

Uma variedade grande de alterações anatômicas proporcionam essas condições, por isso, nesse artigo, vamos nos limitar a cardiopatia de hipofluxo mais frequente que é a Tetralogia de Fallot.

Na Tetralogia de Fallot há uma obstrução a saída do sangue venoso do ventrículo direito devido a um estreitamento da sua via de saída, desse modo o sangue é direcionado, através de uma comunicação interventricular, para aorta, misturando-se assim ao sangue arterial. Essa mistura é pobre em oxigênio, e o sangue pobre em oxigênio ganha uma coloração arroxeada que se reflete na pele – a cianose.

Imagens: Reprodução www.brunorocha.com.br
Imagem: Reprodução www.brunorocha.com.br

É importante notar que a cianose é resultado de uma alteração anatômica que proporciona a diminuição na saturação sanguínea de oxigênio. Assim a criança com hipofluxo pulmonar é cianótica em todas as situações, seja durante o choro ou mesmo em repouso. Isso é muito importante saber para tranquilizar as mães cujos filhos ficam roxinhos durante a perda de fôlego, birra, frio ou devido a doenças pulmonares.

Portanto os sinais e sintomas das cardiopatias de hipofluxo pulmonar podem ser listados:

  • Cianose – em graus variados dependendo do grau de obstrução à saída do sangue do ventrículo direito e o tamanho da comunicação entre o lado direito e esquerdo do coração.
  • Sopro – que é o ruído que auscultamos devido à passagem do sangue pelos defeitos existentes nessa cardiopatia.
  • Cansaço – devido à baixa concentração de oxigênio circulante – difícil de perceber nas crianças memores, pois não é uma respiração cansada, como nas doenças de hiperfluxo pulmonar, e sim uma limitação as atividades cotidianas.

 

As doenças de hipofluxo pulmonar não costumam prejudicar o crescimento da criança, e o batimento cardíaco geralmente é normal, contrastando com o batimento dinâmico das cardiopatias de hiperfluxo.

O tratamento é a correção cirúrgica dos defeitos. Mesmo nas cardiopatias mais complexas há tratamentos que podem aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida da criança. O momento da cirurgia depende das condições que a criança se encontra, podendo, em alguns casos, ser protelado até que o bebê atinja um peso maior. No entanto as crianças com instabilidade clínica ou com cardiopatias mais complexas devem receber tratamento já no período neonatal, às vezes nas primeiras horas de vida, podendo, nesses casos, ser indicada uma cirurgia paliativa (parcial), na esperança de garantir condições para que a criança se desenvolva e no futuro seja submetida a uma correção definitiva.

É imprescindível o diagnóstico precoce dessas cardiopatias, por esse motivo, durante o pré-natal, a anatomia do coração deve ser avaliada com muito critério, indicando o ecocardiograma fetal em casos de dúvidas, possibilitando o planejamento do tratamento desde a vida intrauterina e aumentando a chance de sobrevida para esses bebês.

Sobre Dr. Claudio da Silva Miragaia

Dr. Claudio da Silva Miragaia - CRM: 99141; Cardiologista Pediátrico formado no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Título de especialista e área de atuação reconhecido pela AMB/SBP/SBC. Pai da Júlia (6 anos) e do Vinícius (4 anos), atende em consultório próprio na cidade de São José dos Campos – SP / e-mail: claudio@almanaquedospais.com.br

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