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A importância de um olhar multidisciplinar

Hoje atendi um caso que ilustra bem a necessidade do Instituto que acabei de criar com colegas meus da área da psiquiatria, neuropsicologia e psicologia, que se chama INSTITUTO BRASILEIRO DE SUPERDOTAÇÃO E ALTERAÇÕES DO NEURODESENVOLVIMENTO e que é especializado na realização de diagnóstico, orientação e acompanhamento de superdotação e/ou alterações do neurodesenvolvimento nos âmbitos pessoal, familiar e educacional.

O Pai me procurou, relatando que o seu filho de 8 anos, há dois anos teve diagnóstico de superdotado feito por um instituto, que é especializado em fazer diagnóstico de Superdotação. Conheço o trabalho de tal instituto e sei que a avaliação deles compreende tão somente  o aspecto COGNITIVO. O tal instituto não conta com um profissional da área da neuropsicologia, para apurar a existência de outras eventuais condições que estejam prejudicando o desenvolvimento da criança, que não seja a superdotação. O que eu verifico acontecer com muita frequência são muitos pais que participam do meu grupo no Facebook (Clique aqui para acessar), que descobrem depois de um primeiro diagnóstico de superdotado, um outro diagnóstico agregado à Superdotação de Asperger ou com outra condição como TDAH ou TDO e isso não foi diagnosticado, quando da avaliação feita primeiramente por algum instituto especializado em superdotação. Eu já tive contato com alguns laudos e, ao ler o relatório da escola e da psicóloga do paciente testado, e ao ouvir o relato dos pais, via-se nitidamente que o menino era Asperger, mas para o tal instituto, a criança era somente Superdotada.

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O pai do caso que aqui ilustro, me disse que : “ Porém associado à essa superdotação ele tem problemas de comportamento e é extremamente impaciente e ao ser contrariado algumas vezes se torna violento ”. Me disse que, tentaram uma terapia por algum tempo, porém tal tratamento não teve o efeito desejado e a pouco tempo, seguindo a orientação da escola atual  trocaram de psicóloga.

O pai me procurou, dizendo-se desesperado, pois que devido a esses problemas de comportamento a escola vem suspendendo ele regularmente e hoje ele machucou uma criança e foi suspenso por 10 dias.

O pai disse que já conversou, diversas vezes com a direção da escola, dando carta branca quanto a punições na escola, como diminuição do horário de recreio e advertências verbais, porém devido a grande parte dos pais “passar a mão na cabeça dos filhos” eles sempre ficam relutantes quanto a isso. Ele me disse que não pode ter seu filho sendo trocado de escola anualmente por incompetência da escola em manter a disciplina e não acha correto manter a criança fora da escola por meio de suspensões.

Na parte acadêmica suas notas são bem altas e não apresenta dificuldades.

O pai gostaria de saber, de mim, se há algo que ele possa fazer pois começa a achar que o filho dela esteja sofrendo discriminação na escola e precisa saber o que fazer.

Eu respondi que isso demandaria uma consulta detalhada, mas que de toda forma entendia que o problema do filho dele não está nem na incompetência das escolas e nem na dos pais, já que o pai mencionou que ele apresenta comportamento agressivo e, por vezes, violento. Eu disse que estes comportamentos dele têm uma outra causa e origem, que não têm a ver com a superdotação . O diagnóstico do tal instituto que atendeu o menino, há dois anos, é feito para averiguar a parte de inteligência/cognitiva. Mas, em relação a questões do desenvolvimento e comportamento, como é o caso do filho dele, o correto é que a criança faça uma avaliação neuropsicológica e observação com psiquiatra para apurar se existem outras alterações do desenvolvimento dele que estejam causando este comportamento impulsivo e violento e para que se façam os encaminhamentos e tratamentos necessários .

Acho que o que o pai esperava de mim era tão somente uma consulta jurídica para se RESGUARDAR DE EVENTUAL EXPULSÃO DE SÉRIE e para que eu o oriente acerca da ilegalidade destas suspensões. Também posso e orientarei os pais em relação a este fator. As expulsões e suspensões devem estar previstas no Regimento Interno e obedecer o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas… MAIS DO QUE O PROBLEMA JURÍDICO existe um NÍTIDO PROBLEMA DE DIAGNÓSTICO EQUIVOCADO OU INCOMPLETO que está prejudicando o desenvolvimento desta criança e seu comportamento em sociedade. Por sorte que não afetou o seu pedagógico.

O pai, quando eu sugeri que o filho fizesse uma avaliação neuropsicológica e acompanhamento psiquiátrico, me questionou se eu iria dar a consulta da parte jurídica deste caso e indagou se esta era a minha especialidade.

Eu respondi para ele que advogar na área da Educação TAMBÉM É MINHA ESPECIALIDADE, mas que tenho outra especialidade que é decorrente da minha pós graduação em Neurociências e Psicologia Aplicada e que minha orientação não se cingiria somente aos aspectos jurídicos, deste caso, em si.

É claro que eu não concordo com uma suspensão de 10 dias e nem sei se este tipo de suspensão está previsto no Regimento da Escola. Claro que existem aspectos jurídicos a serem observados no caso em questão e que os direitos desta criança, enquanto aluno, devem ser respeitados. Mas mais importante do que uma orientação jurídica sobre se as suspensões estão corretas, formas de punir, expulsão, etc, está a minha obrigação de ORIENTAR ESTA FAMÍLIA A BUSCAR UM DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO ESPECÍFICO PARA AS NECESSIDADES QUE ESTE MENINO, claramente, VEM APRESENTANDO. Investigar a origem destes comportamentos e violências.

Numa análise fria e sem conhecer o menino, mas com base no meu conhecimento e estudos sobre o tema, poderia arriscar a dizer que ele tem TDO, pode ser Hiperativo do tipo impulsivo ou misto (mais provável) ou até mesmo Asperger e a violência e os comportamentos descritos pelo pai, seriam decorrentes da dificuldade de comunicação, dificuldades em lidar com a frustração (Déficit das funções executivas), ou até mesmo problemas emocionais que o menino apresenta. Mas, sem uma avaliação neuropsicológica e um acompanhamento psiquiátrico, eu até posso resolver as questões jurídicas momentâneas, mas e as futuras ? Os pais sempre irão recorrer e se valer de advogados, para evitar que o menino seja expulso da escola e assim evitar que um diagnóstico preciso (talvez o que eles não esperem ou desejem) atravesse seus caminhos e destrua o sonho do filho superdotado “perfeito” ?

A culpada sempre será a escola, que não sabe lidar com indisciplina, ou o aluno ou pais que não sabem estabelecer limites a seus filhos ? Ninguém parou pra pensar que o diagnóstico dele pode estar INCOMPLETO e que ele possa ter mais alguma outra coisa além da superdotação e que pode estar prejudicando o desenvolvimento deste menino?

Não consigo mais dissociar meu papel de advogada do papel de consultora nesta área da dupla excepcionalidade. Não dá para cuidar somente do lado jurídico e esquecer que existe uma pessoa por trás deste caso, que precisa de um diagnóstico e tratamento corretos. Para resolver este caso, precisamos incluir todos : família, para que providencie um diagnóstico correto e aceite a possibilidade da existência de mais um diagnóstico que justifique os comportamentos apresentados pelo menino ; profissionais da área da saúde e da educação, para que também realizem o diagnóstico correto e que não fiquem focados somente na parte cognitiva do aluno, e para que prestem atenção ao DESENVOLVIMENTO DO GAROTO COMO UM TODO. Com o diagnóstico correto e excluindo todas as possibilidades que possam estar afetando o desenvolvimento deste garoto, podemos cobrar da escola que ofereça atendimento às necessidades deste menino. Mas, sem este diagnóstico ou com um diagnóstico somente da parte cognitiva, isso não será possível.

Pode ser que o pai não tenha gostado da orientação que eu lhe dei, num primeiro momento. Acho que não era o que ele esperava e eu não me ative  somente à parte jurídica. Acabei dando orientações que foram além do que ele desejava ouvir. Afinal de contas, nenhum pais quer ouvir que seu filho precisa de uma avaliação por um psiquiatra também.. Entendo o choque que é ouvir uma sugestão dessas. Talvez ele esperasse encontrar uma advogada que já iria propor processar a escola, pois, aonde já se viu, suspender um aluno por 10 dias, quando a escola deveria saber como lidar com a indisciplina ?  Mas, eu tenho a consciência tranquila e a certeza de que estarei dando a melhor orientação para a vida e o futuro deste menino. Este é o diferencial do meu trabalho e disso eu não abro mão.

Sobre Claudia Hakim

Advogada Especializada em Direito de Educação e Especialista em Neurociência e Psicologia Aplicada Autora do Blog e grupo no Facebook voltado para a Educação de Crianças Superdotadas : “Mãe de Crianças Superdotadas : www.maedecriancassuperdotadas.blogspot.com Membro Fundadora do Instituto Brasileiro de Superdotação e Alterações do Neurodesenvolvimento (IBSDND) Contato : claudiahakim@uol.com.br/ Fone : (11) 35113853

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