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A trajetória escolar e briga judicial do meu filho quando descobrimos a superdotação

Como contei no meu último artigo, finalmente, quando minha filha mais velha já tinha sido acelerada de série, depois de tantas dificuldades burocráticas e resistências, que encontramos por parte da Secretaria da Educação de São Paulo, quando ela já estava adaptada e eu mais relaxada com toda esta história de aceleração, é que parei para perceber os sinais de superdotação que o meu filho mais novo já vinha também demonstrando. Na época, ele estava com 4 (quatro) anos e já estava alfabetizado, tal como a irmã. Demonstrava excelente memória, tinha um pensamento bastante articulado e rápido. Era (e ainda é) muito esperto e tinha bastante facilidade de usar o computador. Foi quando ficamos novamente preocupados. Seria ele também superdotado e teríamos que lidar com todo aquele desgaste em relação à secretaria da educação, novamente, caso ele também precisasse ser acelerado de série?

 

Foto: Reprodução www.therockwarehouse.com
Foto: Reprodução www.therockwarehouse.com

Confesso que, antes de termos certeza sobre a superdotação dele, houve uma preocupação, de nossa parte, acerca de eventuais comparações entre os nossos filhos, de nossa parte, por parte dos nossos parentes e amigos e deles entre si (como irmãos). E também confesso que fiquei mais tranquila, ao perceber que meu filho também apresentava indícios de superdotação, pois assim eu não teria que lidar com o dilema entre educar um filho com muito talento, ao lado de outro com eventuais habilidades que não fossem tão valorizadas por nossa sociedade. Isso porque, nossa sociedade ainda valoriza a inteligência acadêmica como sendo a mais importante das habilidades que um indivíduo possa apresentar. Neste sentido, Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard, nos trouxe uma grande contribuição na tentativa de quebrar este paradigma criado pela nossa sociedade, em torno da inteligência acadêmica, com a sua Teoria das Múltiplas Inteligências, na qual vários tipos de inteligências (habilidades) são consideradas e valorizadas e não unicamente a acadêmica.

Enfim, meu filho teve um desenvolvimento motor e cognitivo bem diferente do da minha filha mais velha. Ele andou mais cedo do que ela (que pode ser um sinal de superdotação) era bem mais agitado (minha filha era bem mais focada, concentrada e observadora do que ele; hoje em dia meu filho é bem tranquilo); falou mais tarde do que ela (mas é sabido que meninas falam mais cedo do que meninos); mostrou interesses diferentes dos da minha filha. Ele adorava o computador, enquanto que ela não dava tanta bola prá ele. Ele sempre demonstrou ser muito musical, cantando em seu berço, assim que acordava e ela nunca demonstrou lá muito talento prá música (a não ser a enorme memória que tem naqueles jogos de tablet para saber quem canta qual música..rs). E, apesar dele ter demorado mais a falar (por volta dos dois anos), assim que o fez, foi de forma bem articulada, com respostas rápidas, divertidas (desde cedo ele demonstrou um senso de humor muito engraçado) e espertas, bem diferente do estilo da minha filha. E assim que começou a falar, já demonstrou curiosidade em torno da alfabetização. Como ele demonstrou desde muito cedo interesse pela informática, ele precisava se alfabetizar para poder usar os sites que, na época, ele curtia usar, que eram o Google Earth e o Google Maps e devo muito da alfabetização precoce do meu filho (aos 4 anos ele estava completamente alfabetizado na leitura e escrita sem erros de ortografia), por conta destes dois sites. O interesse pela informática seguiu, ao lado do talento musical dele (começou a tocar violão e guitarra aos 5 anos) e, quando ele tinha 4 (quatro) anos, conversamos com a escola sobre a necessidade ou não dele ser acelerado de série.

Como já tínhamos resolvido a questão burocrática da aceleração de série da minha filha, nós e a escola achamos que não teríamos mais problemas com a aceleração do meu filho mais novo. Achamos que bastava anexar a avaliação psicopedagógica dele, atestando a sua superdotação, ao lado de provinhas com o conteúdo da série a ser acelerada e encaminhar estes documentos para a diretoria de ensino, que tudo estaria resolvido. E assim fizemos e o meu filho pulou da última etapa da educação infantil para o segundo ano do ensino fundamental. Ele deixou de fazer o primeiro ano do fundamental e cursou o segundo ano, em 2.010, ano em que completou 6 (anos). Assim como aconteceu com a minha filha mais velha, os dois primeiros meses foram os mais delicados em termos da adaptação social dele com o novo grupo e com o conteúdo acadêmico, pois ele perdeu um ano de conteúdo acadêmico, mas, ele deu conta disso, assim como ela, e depois de um tempo, tudo se ajeitou. Ele se dá melhor socialmente com a turma em que hoje ele está de meninos que são poucos meses mais velhos do que ele (meu filho é de janeiro de 2.004 num critério de data/corte de janeiro a dezembro na turma dele e os seus novos amigos são nascidos de janeiro a dezembro de 2.003 – pouca diferença entre eles, como vocês podem ver).

Enfim, em agosto de 2.011, quando meu filho já cursava o terceiro ano do ensino fundamental e estava super bem adaptado à nova série, com notas excelentes no boletim, fomos informados pela diretoria de ensino (que é o órgão vinculado à secretaria da educação) de que a matrícula do meu filho, no terceiro ano, estava irregular e que ele teria que voltar de série!

Na época, eu já tinha clientes também alunos superdotados, que estavam passando por este mesmo dilema burocrático e eu já tinha conseguido regularizar a matrícula destes alunos, judicialmente, através de mandado de segurança, e tive que fazer o mesmo pelo meu filho mais novo! E se eu não conseguisse regularizar a matrícula dele na série em que ele já vinha cursando? Mesmo ele estando super bem adaptado social e academicamente? Ele teria que voltar de série!

Existe uma orientação para os advogados de que é melhor não advogarmos em causa própria. Mas, como eu já estava muito envolvida com a área da superdotação na época (eu estudava muito e acabei criando um Blog para orientar as mães de crianças superdotadas, chamado “Mãe de Crianças Superdotadas” e um grupo no Facebook com o mesmo nome), eu não consegui delegar esta causa para outro profissional, pois sabia que dificilmente outro profissional teria o mesmo engajamento e conhecimento do que eu sobre este assunto. Elaborei o mandado de segurança, anexando o laudo psicológico que comprovava a superdotação do meu filho, o boletim dele, comprovando a aptidão acadêmica e social dele, e redigi uma petição recheada com todos os artigos e argumentos jurídicos e jurisprudenciais que eu já tinha sobre este tema, e graças a Deus, consegui regularizar judicialmente a matrícula do meu filho.

Como vocês puderam perceber o caminho para conseguir efetivar a aceleração de série dos meus filhos e, com isso, poder atender as necessidades educacionais e sociais deles, não foi nada fácil. Mas, o que o coração de uma mãe não faz, para atender as necessidades de seus filhos? Sabemos que a expressão “mover montanhas” é uma metáfora, mas, foi assim que eu me senti, ao ter que lutar com as forças que eu tinha (meu conhecimento jurídico, minhas constantes pesquisas na área da superdotação e a minha resiliência[1]) contra a Secretaria da Educação, para poder propiciar aos meus filhos, a educação que eles merecem ter !

 

[1]resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse etc. – sem entrar em surto psicológico. No entanto, Job (2003), que estudou a resiliência em organizações, argumenta que a resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças na pessoa para enfrentar a adversidade. Assim entendido, em 2006 Barbosa propôs que se pode considerar a resiliência como uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.

Sobre Claudia Hakim

Advogada Especializada em Direito de Educação e Especialista em Neurociência e Psicologia Aplicada Autora do Blog e grupo no Facebook voltado para a Educação de Crianças Superdotadas : “Mãe de Crianças Superdotadas : www.maedecriancassuperdotadas.blogspot.com Membro Fundadora do Instituto Brasileiro de Superdotação e Alterações do Neurodesenvolvimento (IBSDND) Contato : claudiahakim@uol.com.br/ Fone : (11) 35113853

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